Em política, há crises inevitáveis e há crises desnecessárias. A que estamos a viver encaixa-se na segunda categoria. Luís Montenegro, que até nem enfrentava uma oposição propriamente feroz, nem uma contestação social que justificasse instabilidade, em poucas semanas, conseguiu transformar um caso que parecia isolado numa crise governativa.
Confesso que nunca vi um Governo esforçar-se tanto para cair. Nunca vi um Primeiro-ministro tentar, com tanta determinação, criar uma crise política para si próprio.
Primeiro, não contente com os resultados das poucas explicações trouxe-nos o silêncio. Resultado? Enfrentou duas moções de censura que, apesar de tudo, foram rejeitadas. Ou seja, mesmo assim, em nome da estabilidade, não houve vontade de o derrubar. E, a seguir, em vez de se afirmar, resolve apresentar uma moção de confiança que sabia que não seria aprovada. Porquê? Desculpem-me a sinceridade: por pura criancice política.
Luís Montenegro quis fazer à oposição aquilo que a oposição nunca lhe tinha feito nesta Legislatura. Foi a oposição, sobretudo o PS, que permitiu a governação durante este tempo. Agora, não pode nem deve nenhuma oposição demitir-se de uma das maiores responsabilidades que lhe é conferida: o escrutínio.
Por outro lado, mas não menos importante, não pode nem deve um Governo demitir-se de ser escrutinado! Seja através do silêncio, seja através da ausência de respostas, seja até pela tentativa de condicionar um inquérito a ele próprio. Isto é pouco democrático.
Caro ouvinte, se no início desta história eu achava que o assunto não seria de grande relevância, confesso que agora já acho que o Primeiro-ministro tem alguma coisa a esconder.
Seja como for, uma coisa ficou clara: temos uma coligação enfraquecida, um Primeiro-ministro que criou a sua própria tempestade e um País que assiste, incrédulo, a uma crise desnecessária.
(Crónica escrita para Rádio)